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Segunda-feira, 30 de novembro de 2009 - La Plata
Levei um bom tempo para decidir se iria a La Plata ou Popayan. Estou agora em La Plata, e como tenho que esperar 3h30 para o próximo ônibus, estou a escrever, mas ainda não há internet.
Em Tierradentro não há nada para se fazer à noite. Ontem, quando cheguei das minhas andanças, pelas 16h consegui comer um prato de comida e outro de salada de frutas, consequentemente não jantei e fiquei um bom tempo à noite sem fazer nada de nada.
Para passar o tempo, tinha no meu computador o filme Star Trek - the motion picture (1979). Como é um filme muito bom, nunca é demais ver novamente. E ainda assim, fui para a cama antes das 22h, pois estava cansado de andar e com os joelhos doloridos por causa do passeio a cavalo do outro dia.
Não adiantava começar o dia cedo porque o Parque Arqueológico abre às 8h, e eu estava a 30m dele. No café descobri que havia mais 2 turistas, 1 suiço muito boa pinta, e uma americana que me pareceu um pouco esnobe, mas de repente é só o jeito deles. Após o desayuno, fomos ao Parque onde cada um tomou seu caminho. O meu objetivo de hoje era um só, chamado de El Aguacate, a 4km de trilha subindo o morro.
Foi engraçado, comecei bem, atravessei um riacho onde encharquei meu boné e pé na trilha. Alguns metros depois parei e deixei as pernas da calça, e outros mais acima, tirei a camiseta. Na metade minha água acabou, e o que me manteve firme foi a lembrança do Cotopaxi. A diferença é que aqui o calor era enorme, ao contrário do outro.
Mas claro que valeu, a vista é exuberante,


e no topo do morro há mais de 70 hipogeos, com suas entradas ainda sem proteção, com suas duas colunas, e pinturas. E novamente sem iluminação, e com a fraca luz da lanterna do vigia, tentei alguma coisa.


Na volta, encontrei a americana subindo, e como estava dando sua hora, desistiu, faltando poucos metros do cume. Eu fui na frente, pois queria tomar um banho e almoçar antes do meio-dia, pois teria que andar 2km até poder tomar o ônibus, ainda incerto se La Plata ou Popayan.
O almoço foi simples como as pessoas daqui, ou melhor de lá, uma vez que estou em outro lugar.

E conversando com o pessoal no ponto, decidi voltar a La Plata.
Quando passou o ônibus para Popayan, onde a americana e o suíço iriam, também o tomei até o vilarejo Inzá. Parece que o bus estava com problema na embreagem, e por várias vezes teve que parar, o motorista sair, abrir o motor e fazer ajustes.

Claro que isso atrasou a chegada e nisso o carro para La Plata já havia saido (5min), me fazendo esperar o próximo duas horas depois. Dei apenas uma zapeada, pois não havia nada de interessante, nem mesmo uma sorveteria.

No carro para La Plata comecei a conversar com um local, que me fez várias perguntas sobre o Brasil, e uma delas foi: como é a comida. Aí me lembrei do almoço, muito parecido com o nosso mais comum: arroz, feijão, salada e ovo frito.
E se na ida levei 3h, na volta foram duas. Isso deu as 3h30 que tenho que gastar agora.
As pessoas aqui na Colombia são muito, muito simpáticas. Talvez por eu ter cara de alienígena e chamar a atenção, mais ainda um "chino" que tenta falar espanhol...
Vou dizer que gostei muito de Tierradentro, ainda que em termos arqueológicos tenha gostado mais de San Agustin. E da pousada em que fiquei, podia até sair e deixar a porta do quarto aberta. E da avozinha dona da pousada. E da limpeza. E do sossego e silêncio. E...
Domingo, 29 de novembro de 2009 - Tierradentro
Após chover a noite toda, lama, muita lama. Três horas de lama numa caminhoneta até Inzá e mais meia hora até aqui, meio caminho de San Andres de Pisimbala.
Pelo nome, já dá pra ter idéia de onde estou: bem no meio do nada no meio da Colombia, ehehehe...
Se ontem eu reclamei do hotel, esta pousada é exatamente o oposto. Caí de para-quedas, mas já de cara gostei.
Assim que cheguei, uma avozinha veio me atender, e me pediu para escolher um quarto. Quando apontei um, ela me pediu para esperar porque estavam lavando o chão e ainda não estava seco! Aliás aqui é na beira da estrada de terra, mas é muito limpo e arrumado, sem contar que é a poucos metros da entrada do Parque Arqueológico de Tierradentro.

Como não queria perder tempo, sai para o Parque, também muito bem organizado.
Paguei o ingresso e visitei os 2 museus que se situam logo na entrada. São bem pequenos, mas o suficiente para saber os comos e porquês dos lugares que ainda iria visitar.

Aí sim, pé na estrada, ou melhor, trilha para os sítios, separados entre si por pelo menos 1km. E no sol do meio-dia, tudo parece mais longe.
O primeiro se chama Segovia, composto por 30 hipogeos, tumbas escavadas na rocha, com profundidade de 2,5 a 6 metros, com formatos de entradas diferentes, alguns com degraus em espiral, outros em ziguezague, outros simples, cada um da altura do meu joelho e em granito da rocha escavada.

A câmara central é similar em todas, com duas colunas, talvez para sustentar a abóboda, tudo ricamente pintado em vermelho, preto, amarelo, e alguns com esculturas nas colunas.


O mais interessante é isso tudo sempre ficar nos pontos altos dos morros. Isso significa subir, subir e quando chegar já arrastando a língua, descer cada item, olhar, fotografar, analisar, e subir novamente...

Continuando a subir o morro, El Duende. Não descobri a origem do nome. São mais 4 hipogeos, com pinturas e algumas com as cerâmicas intactas, porém sem iluminação e não se pode bater fotos com flash, logo não tenho fotos.
Cerca de 3km de morro, El Tablon, que contém algumas estatuas antropomorfas. O descritivo não dá datas, mas sugere uma relação com as de San Agustin.


De lá pode-se avistar o vilarejo San Andres De Pisimbala.

Que possui uma igreja do tempo colonial, com seu telhado em palha.


E encerrei com Alto de San Andres, de 6 hipogeos sem iluminação, mas com pintura, e não consegui sacar fotos por estar escuro demais. Aqui tem a entrada de uma.

Como já eram 15h15 e o próximo item fica a 4km e fecha às 16h, voltei para a pousada, onde almocei arroz, carne, batatas fritas. Como não tinha água em garrafa, desci um pouco a rua e entrei numa tienda de sucos, onde pedi uma salada de frutas. E tal minha surpresa quando a vi indo ao quintal colher as frutas!!!
Bem, estou achando isso tudo o máximo. As casa daqui são feitas de bambu, isto é, sua estrutura de bambu, muito comum na região, e os interstícios de barro, não sei se algo mais, pois desse jeito qualquer chuva derrubaria. Há alguns sobrados muito bonitos, com suas vigas de bambu envernizadas e paredes pintadas.


Essa ponte é de bambu, e ao invés de cabos de aço, arame farpado.

Mas o legal mesmo sabe o que é? as pessoas daqui são super simpáticas, prestativas e sem maldade.
Sábado, 28 de novembro de 2009 - La Plata
Depois de 3 horas de estrada não pavimentada e sem iluminação, cheguei em La Plata, onde devido ao horário não pude continuar e passarei a noite.
Estou chegando à conclusão que todas as cidades cuja economia se baseia em pecuária são iguais, tanto aqui como no Brasil, principalmente as de beira de estrada. Nessas 3 horas, passamos por 4 vilarejos, que juntando com tantos outros que passei, são todos clones, independente do número de habitantes.
Andar a cavalo foi legal, porém minha coluna está um pouco cansada, e por isso ao sair da buseta (desta vez ela não parou na rodô e sim no escritorio da empresa) preferi não caminhar muito e entrei em algo que achei ser um hotel.
Talvez tenha sido há muitos anos, pois vi na parede um quadro com uma licença e um registro do tipo "Ministério do Turismo". Se chama Solar del Viajante.
À primeira impressão foi assustadora. Várias crianças no corredor estavam jantando, e o pai, que me atendeu, indicou um quarto com uma cama e uma cadeira, paredes cor alaranjada com a pintura descascando, banheiro publico sem papel nem sabonete, portas sem fecho e finalmente descobri o por quê nas propagandas de hotel vem "agua caliente". Aqui faz tanto calor que todos tomam banho frio. O dono até se prontificou a esquentar uma chaleira, mas deixa pra lá...

Porém meu "sentido-aranha" não indicou nada de mal. É só um lugar descuidado por falta de zelo, manutenção e claro, hóspedes. O dono não só me indicou um restaurante como me levou até ele, e me está dando várias dicas de como/qual/onde devo ir amanhã.
Me lembrei quando estive na India, banho frio, sem sabonete, sem toalha e aspecto sujo.
Mas sei que vou rir muito daqui a algum tempo ao me lembrar disso, especialmente do fecho da porta, que é um parafuso que a gente tem que colocar pela lateral do batente!

E pensando bem... acho que sou muito bonzinho!
Sabado, 28 de novembro de 2009 - Pitalito
Estou passando o tempo porque perdi o bus das 14h, e tenho agora que esperar até as 16h.
O dia começou cedo, às 7h, e a cavalo. O guia se apresentou como Alban e irmao de Orlando, meu guia de anteontem. Bem sossegado e bonzinho também.
Fomos a um lugar chamado La Pelota, nome dado porque há um monte com este formato ao fundo, muito interessante porque as tumbas foram encontradas com as cores originais, e intactas. Nao me recordo a data, mas é de antes de Cristo.



Olha meu cavalo, se chama Palomito Blanco.

E este cenário. É impossível se chegar de carro ou moto.

É lá que se encontra a deusa "La Chaquira", olhando para o rio Magdalena ao fundo.

Terminamos o passeio indo ao Tabloide, nome dado porque esta era uma regiao de extraçao de madeira.

Nisso já era meio-dia e meu horario se havia esgotado. De volta à cidade, almoço e tentei chamar o Juan Carlos, mas parece que seu telefone estava fora de área. Negociei um motorista que me trouxe até aqui, rodoviária de Pitalito, onde nao consegui tomar o bus das 14h por já estar cheio.

Nao tenho opçao, mas isso irá me atrasar o cronograma em meio-dia...
Sexta-feira, 27 de novembro de 2009 - San Agustin
Saí antes das 8h para conhecer um pouco a cidade, fui andando sem rumo, as lojas estavam fechadas, mas deu pra ter idéia do que há. Como toda cidade, uma praça com uma igreja e comércio em redor.



Parei para um café aguado numa panaderia, e fui passear no mercado Central. As frutas são muito bonitas!


Às 9h chegou o motorista que iria me levar a alguns lugares chaves daqui da cidade.
Primeiramente fomos a Obando, onde o rio Magdalena se estreita a menos de 2m e a profundidade chega a 40m. Um lugar muito gostoso e fresco. Dá até vontade de pular.

Seguimos para a cidade, onde há mais sitios arqueológicos, tumbas in-situ, porém como as outras coisas de ontem, com as atividades paradas por falta de interesse do governo.

Logo depois, mais outro, chamado de Alto de los Idolos, dos séculos I a IV. Muito interessante, pois somente alguns possuem guardião, e menos ainda uma tampa ornada.



Ainda antes do almoço fomos ver (de longe) a segunda cachoeira mais alta do mundo 400m, chamada de Salto de Bordones. Não se pode chegar mais perto que isso.

E em seguida, mais arqueologia, um sitio chamado Alto de las Piedras, onde há um guardião muito bem esculpido, inclusive na parte de trás, com quase 2m de altura.

Aí sim, pausa para almoço, na cidade de San José de Isnos. Na foto, o motorista Juan Carlos, muito bonachão e divertido, e seu primo Piña, também muito divertido. Rimos muito o caminho todo.

Visitamos uma outra queda d´água, Salto Mortiño, um pouco mais baixa 180m, porém pode-se chegar mais perto, mas ainda assim não se consegue colocá-la inteira numa foto.

San Agustin possui 40 mil habitantes, mas tem cara de 3 mil. Sua economia se baseia em turismo e gado, as plantações de cana, milho e café são quase que para consumo local.Embora uma grande parte seja descendente de índios, não possuem traços tão acentuados como vi no Ecuador, e parece que todos conhecem todos, e são muito simpáticos. A energia vem de uma represa a 4h daqui. A quantidade de motonetas e motocicletas também é enorme!
O governo suspendeu todas as atividades arqueológicas porque o retorno não é tão grande. No Ecuador há uma entidade chamada Fonsal (Fondo de Salvamento), que está se esforçando para manter os estudos e escavações dos lugares. Bem bacana, tomara que isso continue!
Mudando de assunto, estava agora há pouco comendo um sanduiche (aqui significa misto quente), e a reparar numa coisa que invejo: a capacidade de ver beleza em coisas simples e pequenas. Isso aqui é muito comum. Estava a dona do estabelecimento conversando com sua filha quando esta começou a cantar uma canção sobre amizade que aprendeu na escola. Acho que tanto a mãe quanto eu nos comovemos.
Quinta-feira, 26 de novembro de 2009 - San Agustin
Acordei às 5h porque meu ônibus era às 6h. Beleza, cheguei no terminal 20min antes, peguei minha mochila e fui esperá-lo: 10min, 20min, 40min... quando fui averiguar, fiquei sabendo que cancelaram porque havia somente 2 passageiros. Grrrrrr...
Mais 2h de espera e saímos às 8h20 nessa buseta.

As primeiras duas horas beleza, mais montanhas, entramos numa zona totalmente rural, com plantações de milho e morangos nas planicies e gado nas encostas. Paramos para café da manhã, caldo de galinha e arroz, feijão, filé de pescado e salada, e continuamos. O cenário então mudou, um estrada de terra e lama, toda esburacada, cortando a selva, dos 2 lados só se via mato, mato e mato.
Quando saímos da floresta, um posto de inspeção do exercito, soldados com metralhadoras farejando o bus (nem me atrevi a bater fotos). E novamente mudamos de cenário, para plantações de banana, cana de açúcar e café. De repente, o ônibus pára na estrada e o cobrador pede para eu descer porque tinha chegado. Descobri que eu era o único passageiro a ir a San Agustin, e a empresa me botou no carro destinado a Pitalito, e fretou um taxi para me levar, 5km adiante. No fim, essa aventura na buseta durou 6 horas, mas uma coisa é certa: os bancos e a estrutura desse marcopolo são muito fortes!
Não sei qual o rolo, mas junto do taxi havia uma menina muito simpática, Eliana, que se identificou como "World Heritage Travel Office", ou seja, do departamento de turismo da cidade. Começamos a conversar, e com ela obti mapas, guias, informações, alojamento (1 apto com 3 camas só pra mim) e tudo mais. Legal né? como estou 1 dia adiantado no meu roteiro, vou ficar aqui.


Nem descarreguei direito, e fomos ao Parque Arqueológico de San Agustin.

Lá primeiramente visitei o museu, para me interar do contexto temporal das peças, que variam de 3500 a.C. a 1400 d.C.

Na saída, arrumei um guia, Orlando, um pessoa muito simpática, artesão e guia nas horas vagas, mas que me mostrou o parque e me deu informações preciosas que nunca iria imaginar se estivesse sozinho. Por exemplo, esta era daquelas tribos que forçavam o alongamento dos cranios...




A tarde passou rápido, e fomos jantar um prato tipico daqui: cuy. Delicioso!



Ou seja, foram muitas horas de estrada, lama, chuva, buracos, mas estou feliz. E estou começando a gostar da Colombia também!